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Renata Gonçalves Gomes resenha o documentário de Rodrigo Lopes de Barros sobre Ricardo Chacal (Brasil)

Ricardo Chacal, o poeta marginal em Harvard

Resenha do curta-metragem Chacal: Proibido fazer poesia. Direção de Rodrigo Lopes de Barros, Co-Produção Guilherme Trielli Ribeiro, 2015, 24:13 min.

O curta-metragem de Rodrigo Lopes de Barros tem como principal objetivo acompanhar a semana em que o poeta Ricardo Chacal passou em abril de 2014 nos Estados Unidos. Além de diretor de cinema, Rodrigo é professor da Boston University e trabalha com literatura brasileira e latino-americana. Juntou, portanto, esses dois ofícios à familiaridade com a vida acadêmica da costa Leste dos Estados Unidos e realizou Proibido fazer poesia, que se mostra inovador tanto para aqueles que conhecem Chacal quanto para aqueles que querem conhecer a poética dele. Para esta mesma semana, em abril de 2014, Chacal foi convidado para a 12th Brazil Week at Harvard, na Universidade de Harvard, para fazer performances, ministrar uma oficina de poesia e dialogar com alunos e professores sobre a sua poética. O filme Proibido fazer poesia apresenta algumas dessas performances e conversas, mostrando o percurso da carreira poética de Chacal.

O filme começa apenas com a voz de Chacal saudando o espectador com um sonoro – e rouco – “hello, hello”. Chacal é um poeta performático: sua poesia não existe sem a voz e sem a performance e, portanto, sem a plateia. Pois um poeta performático jamais conseguirá ser um poeta completo se não houver plateia. Chacal busca a linguagem para além do papel, para além do livro. E o filme Proibido fazer poesia retrata essa performática máxima de Chacal, mostrando não só a obscura década de 1970 em que o poeta surgiu, como também as performances que ele fez durante a semana em que esteve em Harvard. Algumas delas, com plateia e aplausos (como na última cena do filme), outras, das mais interessantes, feitas especificamente para o filme, como a cena em que Chacal lê o poema “Na biblioteca”, do livro Preço da Passagem (1972), em meio a prateleiras de arquivos de uma das bibliotecas de Harvard. Imaginaria isso Orlando Tacapau depois de dizer never more?

Na biblioteca
com a loucura no bolso, orlando entrou
na biblioteca estadual.
folheou folhas estapafúrdias sobre
as ideias a arquitetura e a descompostura
dos homens.
aí achou graça. aí ficou sério. aí riu.
aí chorou demais.
aí começou a tremer.
sentiu o bolso furado.
sentiu o corpo molhado.
derretendo-se.
beto chegou a tempo de recolher num copo
a poça d’água que corria pelo ralo.
orlando disse mais tarde:
não faço isso never more. (Chacal, 2007, p.337)

Na década de 70, quando o poema foi publicado, Chacal escrevia seus poemas a partir de um rompimento com a tradição literária de vanguarda. Por outro lado, a literatura de Oswald de Andrade com seus manifestos influenciou não só Chacal, como toda a geração de 70, incluindo alguns dos poetas marginais e também os tropicalistas. O ritmo e a “secura”, ou o poema enxuto, são heranças deixadas a Chacal por Oswald, e que juntas com imagens psicodélicas provindas da lisergia acumulada da década de 70 mostram uma das formas poéticas desse poeta marginal. “Na biblioteca”, então, reconhece esse lugar do poeta fora da biblioteca – no palco para o poeta performático ou na rua como os artistas do Charme da Simpatia. No filme, Chacal reitera esse percurso que partiu de Oswald de Andrade e passou pela marginalidade editorial, porém não problematiza seu lugar na biblioteca hoje. Desta forma, a cena em que Chacal recita o poema na biblioteca de Harvard, com sua antologia em capa dura nas mãos, traz a binaridade entre o marginal e o canônico à tona, sem necessariamente expor essa diferença.

Na cena inicial do filme, Chacal apresenta seu livro Belvedere à estátua de John Harvard. Essa é outra cena que representa a passagem da carreira de Chacal: de um poeta que começou com livros mimeografados na década de 70 ao poeta consagrado pela antologia em capa dura. O reconhecimento da crítica sobre a sua obra está efetivamente representado pelo convite da Universidade de Harvard, uma das mais antigas e tradicionais universidades estadunidenses. Como Chacal mesmo diz no filme, na década de 70 não havia a preocupação com o acabamento do livro, havia apenas a urgência de se escrever algo, a urgência de se ter uma voz perante ao contexto político vivido no Brasil. A cena de Chacal entregando seu livro a John Harvard representa o gesto de uma aproximação entre o marginal e o canônico, pois, ao mesmo tempo em que Chacal hoje é um poeta consagrado pela crítica, não deixa de carregar em sua poética e histórias a marginalidade em que se situava na década de 70. Há também, para além da consagração do autor, a canonização da contracultura brasileira. Se torna impossível documentar Chacal em filme, em tese, em livro, sem pensar na contracultura, no desbunde da década de 70 e na repressão da ditadura militar. E é através da voz de Chacal, de suas histórias contadas, que esse contexto é exposto no filme.

Chacal é um exímio contador de histórias, haja vista seu livro Uma história à margem, autobiografia lançada em 2010. Em Proibido fazer poesia ele discorre sobre os acontecidos e as dificuldades do período do regime militar no Brasil. A impressão de Chacal sobre o contexto político e cultural em que vive – e principalmente em relação aos anos 70 – é sempre muito relevante em seu discurso e sua poética. No filme, Chacal revela as dificuldades do período da ditadura militar e como a tentativa de romper com as estruturas políticas através da linguagem fazia com que se tivesse uma ideia de revolução cultural. Chacal no filme expressa a sensação de censura que rondava a década de 70 no Brasil: “(…) E a polícia não gostava disso [da revolução cultural]. Era proibido ser feliz, era proibido ficar doidão. Era proibido ter cabelo comprido, proibido fazer poesia” (00:19:44-00:19:52). Com o título do filme sendo Proibido fazer poesia, provindo dessa fala de Chacal retratando o momento histórico em que o Brasil vivia, é relevante pensar em o quão importante a década de 70 foi e ainda é para a poética de Chacal.

            No âmbito do gênero cinematográfico, o filme de Rodrigo Barros lembra o filme-documento Assaltaram a Gramática (1984), de Ana Maria Magalhães, o qual constrói uma rede de significativas falas sobre poesia ao passo que apresenta performances poéticas dos nomes mais conhecidos da poesia marginal, como Chacal, Waly Salomão, Francisco Alvim, Paulo Leminski e Ana Cristina Cesar. Proibido fazer poesia, porém, ao retratar apenas Chacal, articula questões referentes à sua poesia criada na década de 70 através da memória do poeta. Com o distanciamento de época, o filme monumentaliza a consagração de Chacal e põe em xeque a binaridade existente da poesia marginal que, a partir do momento em que vira peça de museu, deixa de ser marginal e passa a ser centro, cânonica. O filme, ao não tratar o deslocamento centrípeto da poesia marginal como um desvio poético incoerente, permite que o espectador faça uma leitura da poesia brasileira para além do que é marginal ou cânone, ou seja, abre caminhos para se pensar o que é a poesia per se. Desta forma, o filme apresenta a binaridade entre o marginal e o cânone de uma forma menos rígida. Mostra que é possível o trânsito entre os diferentes nichos poéticos, seja marginal, seja canônico. Porém eleva o poeta consagrado a partir do reconhecimento crítico, no caso, da Universidade de Harvard.

Desta forma, o filme faz um recorte para além de uma documentação educativa sobre o poeta e sua poesia, como foram os curtas-metragens produzidos pelo INCE a partir de 1937, que retratavam, entre outros, Carlos Drummond de Andrade e Machado de Assis em busca de uma identidade nacional vinculada à literatura, como afirmou Ana Cristina Cesar em Literatura não é documento (1979). O curta-metragem de Rodrigo Barros não busca uma identidade nacional através de Chacal, mas sim estabelecer uma ponte entre o marginal e o consagrado, entre os anos 70 e as décadas iniciais do século XXI no Brasil. Desta forma, o filme Proibido fazer poesia se torna bem-sucedido a partir do momento em que sintetiza a consagração do poeta marginal através do convite para fazer performances durante uma semana na Universidade de Harvard. Essa consagração, porém, foi alcançada através de uma dura realidade política na década de 70, como afirma Chacal em suas falas em Proibido fazer poesia.

O filme começa a partir da consagração do poeta em Harvard, de sua canonização simbólica, mas descreve através das histórias de Chacal toda a sua poética escrita na década de 70 e o contexto político em que estava inserido na época. Desta forma, Proibido fazer poesia faz uma ponte entre o marginal e o canônico, mostra em imagens a consagração em Harvard em 2014 e em palavras e histórias a marginalidade da década de 70. Ao cruzar essas duas realidades, o filme sai do binarismo entre marginal e cânonico e mostra que, com Chacal, a poesia está para além do binarismo, com ele é possível que a poesia seja tanto marginal quanto canônica.

Renata Gonçalves Gomes faz doutorado em literatura Norte-Americana do século XX na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Parte de sua pesquisa de doutorado foi feita na University of California, Berkeley, de 2014 à 2015. É mestre em literatura Brasileira pela UFSC, com ênfase na poética de Chacal. É bacharel em Letras Inglês e Literaturas pela UFSC, com pesquisa comparativa entre as poéticas de Chacal e de Allen Ginsberg. Tem publicações sobre a poética de Chacal em periódicos acadêmicos nacionais e internacionais, bem como apresentações de trabalhos em congressos e de minicursos sobre o poeta.

Un comentario el “Renata Gonçalves Gomes resenha o documentário de Rodrigo Lopes de Barros sobre Ricardo Chacal (Brasil)

  1. rodrigolopesdebarros
    agosto 19, 2016

    Reblogueó esto en Anaforuana.

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Esta entrada fue publicada el noviembre 1, 2015 por en Brasil, Poesía y experimentales.

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