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Ingrid Robyn resenha Tiago Savio (Brasil)

Savio, Tiago. Cicatrizes para colorir. São Paulo: Dobra Editorial, 2012.

cicatrizesRaros são os casos em que entro numa livraria paulistana para comprar livros. Não é que não goste das nossas livrarias. Ao contrário. Mas livraria, na minha experiência, é como vitrine de loja cara: você olha, eventualmente até verifica preços, mas volta para casa de mãos vazias. Ao menos no Brasil, onde o mercado está dominado pelas mega-livrarias e as grandes editoras. Nesse dia não. Entrei na livraria disposta a levar algum livro. Vi romances premiados, livros de poesia com design gráfico invejável, livros de arte e fotografia – todos lindos, mas obviamente incompráveis –, sentei num sofá com uma bela pilha, e comecei a folhear. Foi assim, um tanto ao azar, que voltei para casa com Cicatrizes para colorir (2012), romance de estréia de Tiago Savio. Não sei exatamente o que me chamou a atenção neste pequeno romance, e para ser honesta, não esperava muito dele. Mas levei. E até mesmo li. Em um dia. O que é sempre um bom sinal.

O romance se estrutura como outros tantos romances contemporâneos: cinco personagens, cinco linhas narrativas, todas narradas maiormente em primeira pessoa. Um médico, um motorista de caminhão, um padre, uma prostituta, uma arquiteta: personagens completamente díspares, unidos azarosamente por um trágico acidente. Certo ar de policial permeia as primeiras páginas da obra, anunciando o que bem poderia ser o início de um romance bastante ordinário. Mas a tragédia que de início reúne esses cinco personagens não é senão uma porta, um ponto de partida para que comecemos a penetrar a fundo a história e a psicologia de cada um deles. E é aqui, na tessitura de cada uma dessas vozes narrativas, de cada uma dessas personalidades, que se encontra o maior logro deste pequeno romance. Personagens redondos, ora completamente odiosos, ora dignos de certa empatia, cada um com uma forma de narrar, e sobretudo, uma linguagem completamente distintivas. Gênero, faixa etária, condição sócio-econômica, obsessões pessoais, tudo se reflete com notável habilidade na linguagem com a que Tiago Savio nos brinda em cada uma das cinco linhas narrativas que compõe o romance, verdadeiro mosaico em que o autor desfila a sua versatilidade como narrador:

Declaro o óbito. A garota faleceu em minha mesa cirúrgica. Seus pés aparecem sob o lençol, mortos, algumas mechas de cabelo pendem da mesa, amontoados de proteínas saindo de folículos pilosos que não recebem mais irrigação. Nenhuma de suas células tinha chances reais de sobrevivência, mas somos obrigados a tentar. Tentei tanto com Irene, mas agora o divorcio, a distancia, com certeza, é a melhor chance que temos de nossos órgãos continuarem funcionando.

 

Veio correndo. A menina. Que nem galinha fugindo de raposa. Entrou na frente do caminhão. Não deu para desviar. Levaram para o hospital. A menina. A cabeça queria fugir. Só que lembrou. Das minhas menina. Se fizessem com elas. Os polícia vieram. Contei tudo. Levantaram minha ficha. Trouxeram eu pra delegacia.

 

Vou à cozinha, abro a geladeira, procuro algo, talvez o Gabriel, fecho. Confiro o celular, ele ainda não retornou nenhuma das ligações. Deve ter acabado a bateria, João, ele está bem. Não, ele carregou a bateria de manhã, não foi isso. Guardo alguns livros na prateleira, checo o celular, ligo a TV, desligo, olho o celular mais uma vez. Descansa um pouco, menino. Não consigo. Bebe alguma coisa para relaxar. Um uísque. Não, pode ter acontecido alguma coisa, preciso esperar.

achei que eles iam ajudar eu com o salafrário filho da puta puta da puta… esses veados desgraçados vieram foi segurar eu para bater em mim nem depois dele matar minha filha alguém ajuda eu eles tem tudo o coração é na sola do pé que não quer saber de ajudar… larga larga larga eu larga foi ele que matou a minha Jennifer tenho que acabar com o infeliz que é o que ele merece vou fazer o que ele fez cm ela que já tirou tudo que eu tinha agora vem aqui…

Entro no casarão quase desabando, preciso de tempo para reconstruir. Fui adotada, a mendiga morreu, apesar de tudo que fiz, preciso do James, meu marido. Ele espera, deitado na cama de meus pais, que nunca se deitaram ali, não eram aqueles os pais, não os meus. O quarto é tão antiquado, vou trocar os móveis, com certeza. Um quadro naquela parede, aquele Smithson que vi outro dia seria ótimo.

Cronologicamente, a narrativa é retrospectiva. Cada capítulo nos leva um ano em direção ao passado, cobrindo um arco de mais de vinte anos, como numa espécie de micro-bildungsroman polifônico regressivo. Aos poucos, vamos conhecendo o passado e os pequenos traumas que marcaram a vida de cada um dos nossos cinco personagens, as cicatrizes a que alude o título. Neste sentido, o romance é mesmo como um livro de colorir: cada capítulo lido é uma cicatriz, um trauma que vai ganhando cores. E no entanto, poucas, muito poucas pistas sobre o que eventualmente uniria esses cinco personagens, que tão pouco têm em comum. Conforme avançam os capítulos, sabemos que alguns deles já se conheciam antes do acidente, tal vez todos. Mas pouco mais do que isso. Até, claro, os capítulos finais. Poupo o leitor de maiores detalhes. Retoma-se o ar de policial com que se inicia a obra. Melhor: de thriller psicológico. A morte dá espaço a outro tipo de tragédia, menos definitiva, mas não menos penosa. Entendemos, por fim, porque a questão do gênero pesa tanto em cada narrativa individual. Traumas, cicatrizes. Já não tão coloridos. Talvez negros. E infelizmente, tão quotidianos neste nosso século.

Um último comentário: numa narrativa permeada por tragédias, grandes e pequenas, reais e imaginárias, pouco espaço pareceria haver para o humor. E no entanto, prova da versatilidade deste excelente narrador, o romance está permeado por toques de humor. E é nesses momentos em que detrás da impostura, das vozes emprestadas a cada um dos seus personagens, se ouve a voz do narrador Tiago Savio. E aqui deixo o leitor, com uma pequena mostra de que as cicatrizes, às vezes, também podem colorir-se com humor:

Seu cofrinho estava quase cheio quando ouviu a mãe de Irene contar que a inspiração de seus dias havia concordado em se casar com outro vizinho. Aos cinco anos de idade, conheceu as trevas inescrutáveis da traição. E sua mãe riu ao ouvir tão sórdido conto, não havia mais ninguém em quem pudesse depositar sua confiança.

Sozinho e sem esperanças de remendar seu coração, usou o dinheiro do casamento para comprar um boneco do Batman.

Ingrid Robyn (São Paulo, 1981) tiene un doctorado en literatura por la Universidad de Texas, Austin, con una tesis titulada Rostros del reverso: José Lezama Lima en la encrucijada vanguardista. Recientemente terminó el manuscrito de su primer poemario, Quejidos de poesía geotélica, y apenas mantiene el blog http://destrozos.wordpress.com/. Actualmente es visiting professor en Trinity College en Hartford, Connecticut. Ha reseñado para El Roommate a los siguientes autores: Ángel LozadaPablo de CubaAlberto GarrandésReinaldo Arenas , Luís Madureira y Lorenzo García Vega

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Esta entrada fue publicada el septiembre 27, 2014 por en Brasil, Ficción.

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Exiliados académicos haciendo nuestros doctorados en literatura con becas en universidades americanas. También somos lectores y escritores de literatura, y también hay uno que otro americano exiliado en su propio país que no dejan de irse de Estados Unidos y que escribe en español.

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